Um demaquilante para a maquiagem política
jun 2014 16

No governo municipal, fiamo-nos em encontrar autoridades que nos representem e que transmitam confiança no exercício do poder. Para tanto, procuramos adquirir conhecimento sobre os candidatos que elegemos. Nesse processo de busca, analisamos a imagem passada pelos candidatos para conhecê-los e traçar seu perfil através de seus pronunciamentos e ações públicas. O problema é que nem sempre podemos confiar nas palavras de muitos deles, devido aos problemas insurgentes no processo de gestão do município, sendo necessária uma atenção redobrada para o que dizem ter cumprido, o que dizem ter feito e o que dizem ser.

Os vereadores, em geral, cumprem seus horários e compromissos municipais, mas têm o direito de exercer outra profissão ou emprego. Em nossa cidade, alguns deles são administradores de empresas, advogados, metalúrgicos e engenheiros. Porém, alguns realmente são, outros dizem ser. É o caso do vereador José Menezes que teria falsificado seu diploma de engenheiro, segundo uma suspeita levantada no ano de 2012, na Câmara Municipal dos Vereadores da cidade. Sabe-se que a pedido do Ministério Público Federal, foram realizadas investigações para delatar se o vereador exercia irregularmente sua profissão, uma vez que teria apresentado seu diploma para conseguir o registro no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia, dando a ele o direito de exercer a profissão.

No ano de 2013, a Polícia Federal afirmou ser falso o diploma do vereador e o Ministério Público encaminhou o caso para a Justiça Federal. O vereador responderia por aproximadamente 290 crimes, majoritariamente por ter assinado plantas de obras de engenharia sem o verdadeiro registro no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea). Inicialmente, o vereador alegou não saber que seu diploma seria falso e pediu sigilo no processo, mas afirmou que o fato não constituía crime. Ora, como se pode afirmar que falsidade ideológica não constitui crime? Poderia um falso médico examinar um paciente sem ter formação profissional para tal fim? Claramente não, da mesma forma com que um simulado engenheiro não possui conhecimento específico o suficiente para aprovar ou não obras que se encaminharam com dinheiro municipal.

Recentemente, foi deduzido pelo Ministério público que José Menezes sequer foi matriculado num curso de engenharia e, por isso, foi determinado pela Justiça a interdição temporária dos direitos políticos do vereador, além da proibição de exercer seu cargo de vereador por um ano. O vereador também terá de doar R$ 3.500 a uma entidade assistencial. Menezes, segundo os jornais, afirma que é engenheiro formado e que não falsificou diploma para exercer a profissão.

Todavia, segundo o Tribunal Superior Eleitoral, as fichas de outros servidores municipais também não são tão limpas como deveriam ser. O vereador Herval Rosa Seabra, por exemplo, possui em sua ficha criminal estelionato e outras fraudes (1996) e apropriação indébita (2005); Luiz Eduardo Nardi, também vereador, foi acusado de ter cometido crimes contra a fé pública  (2002); Yoshio Takaoka, ex-Vereador da Câmara Municipal, teve seu mandato cassado em 2013 por compra de votos nas eleições de 2012; O deputado (e ex-prefeito de Marília) Abelardo Camarinha, dentre muitos escândalos, foi acusado também pela Justiça Eleitoral de ter feito campanha para o filho (o atual prefeito Vinícius) repassando verba da cota parlamentar para sua rádio; Vinícius, por sua vez, já foi acusado de apelação e até precisou de um mandado de segurança. Todos eles maquiam seus erros e afirmam ardentemente não estarem errados, não saberem do que se trata, assegurando que são inocentes ou vítimas de jogos políticos.

Vistos os fatos, questiona-se e logo descarta-se a possibilidade de confiança em um candidato que precisa falsificar um diploma para que isso lhe desse status para que assim fosse eleito, sem mencionar o envolvimento em trocas de favores. Também questiona-se a ética e responsabilidade do mesmo ao assinar obras que deixaram de ser analisadas por um profissional formado e resultaram em dispêndio de dinheiro público sem qualquer garantia de qualidade. E não só isso: como poder confiar em políticos que são envolvidos em escândalos constantemente? Além disso, como já foi dito aqui no site do Observatório, o administrador público que aposta no caos, jogando sua culpa e irresponsabilidades em terceiros, e que toma decisões mesmo sabendo que estas levarão à desordem, promovendo o caos para fugir da responsabilidade de administrar, é desprovido de capacidade técnica, expertise política e, principalmente, sensibilidade ao ouvir a população.

É fato que em municípios por todo o Brasil, a massa de candidaturas vem crescendo, mas isso nem sempre pode ser resultado de maior engajamento político da população. Infelizmente, esse crescimento pode indicar a atração das pessoas à vida política para fins de promoção pessoal e interesses suspeitos; não por consciência e engajamento. É visível que existem indivíduos que veem na política a esperança de ascensão econômica e prestígio social, desviando-se dos verdadeiros propósitos da vida pública. É necessário manter-se alerta a esse tipo de maquiagem política e manipulação, além disso, ampliar a atenção também ao âmbito nacional. Tendo visto que este é um ano de eleições, pode-se esperar manipulação e muitos conflitos que dispersam a atenção da população, maquiando o real problema dos municípios, dos estados e do país: a falta do verdadeiro comprometimento político. Este, então, seria o melhor “demaquilante” para toda essa pintura.

Amanda Bonome

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