Homem, um “animal político”
out 2014 14

O primeiro turno das eleições terminou e podemos fazer um balanço: essas foram as eleições mais caras da história brasileira; o país contou com milhares de casos de propagandas irregulares nas vias públicas; transporte eleitoral irregular; e ainda observamos pesquisas eleitorais errôneas. Mas também foram eleições onde milhares de candidatos e eleitores foram devidamente presos por crimes eleitorais; onde o envolvimento da população serviu para romper com casos de coronelismo (como no Maranhão); houve maior participação popular nas discussões políticas; e pudemos ver casos de derrubada de “reinados” pelo funcionamento da lei da Ficha Limpa.

Alguns desses fatos são indignantes, como o gasto com propaganda eleitoral, haja vista que foram as mais caras do mundo, tendo os 22 mil candidatos alcançado o gasto de R$ 71 bilhões de reais, segundo um levantamento no banco de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Não bastasse isso, tais gastos foram combinados com o marketing abusivo e a oratória vazia e muitas vezes  enganosa dos candidatos. Outro fato é que apesar de toda a informação gerada em torno das eleições e suas regras, contamos com milhares de pessoas que agiram irregularmente durante o período alegando não saber que seus atos constituíam crimes eleitorais (incluindo as chamadas selfies).

Além do mais, tal falta de informação ou excesso de cinismo da população permitiu a eleição de candidatos ainda que estes estivessem condenados pela Lei da Ficha Limpa. Um exemplo próximo é a eleição como Deputado Estadual do candidato Abelardo Camarinha (PSB), que mesmo estando indeferido com recurso continuou apto a ser votado e contou com 79.325 votos, sendo 44.998 mil deles na cidade de Marília. O candidato está sendo julgado como irregular por não atender as condições necessárias para assumir o cargo, porém, a ironia é que Camarinha adquiriu um recorde de votos justamente no período em que foi desmoralizado pela lei. O candidato foi indeferido do cargo, contudo, há brechas na lei que podem permitir que ele o assuma.

O gasto com a campanha eleitoral de Camarinha foi declarado no valor de R$ 136.832,53 e o total de Receitas no valor de R$ 166.586,50. Possui, segundo o sistema de divulgação de candidaturas, uma quantidade de bens declarados no valor de R$ 204.492,00, neles estão inclusas cotas de participação na empresa Rádio Clube de Vera Cruz LTDA. e Rádio 950 (transmitida em Marília e região).  Tendo em vista tal participação na posse das rádios, foram levantadas sérias suspeitas e acusações ao candidato e sua família, por manipulação da mídia local. Na Sessão Ordinária desta semana, uma manifestação sobre este assunto surgiu, novamente pelo vereador Mário Coraíni: o vereador levantou a questão da manipulação de mídia,  lamentou a quantidade de votos recebida pelo candidato e observou que a população votou em um candidato inapto ao invés de escolher um bom representante para a região.

Não somente nesse caso, tal ponto se faz importante a ser questionado, pois: o que leva a população a escolher candidatos “negativados” com a lei uma vez que se pode eleger pessoas que, ao menos, possuem uma boa conduta politica? O que lhes falta? Informação? Opção? Ou está sobrando muito marketing, propaganda e espaço nos meios locais de comunicação? Difícil compreender.

Em seus escritos, o filósofo Aristóteles afirmava que o homem é um animal político, pois somente ele possui a linguagem, sendo que ela é o fundamento da comunicação entre os seres humanos. Segundo o filósofo, o homem político busca a vida em comunidade para alcançar a completude. Seguindo esse pensamento, a escolha de um candidato, atualmente, precisa vir de uma comunicação social e desejos comuns de uma sociedade. Portanto, mesmo para aqueles que dizem não gostar do assunto “política”, a obrigação de sair de casa e se dirigir para seu colégio eleitoral exige ao menos o mínimo de reflexão.

Apesar de escassos, há sempre algum candidato que pode melhor representar os interesses de um grupo de indivíduos, lembrando que de forma limpa. O apelo de muitos concorrentes, em seu tempo de propaganda, pode nos deixar receosos e descrentes no futuro da política, mas não deve ser assim. Sabemos que várias figuras políticas surgem de um tradicional engajamento familiar, mas há também outros que se inserem na política por uma opção consciente e ética.

É claro que é difícil, num período de grande “agitação” política e diferentes opiniões, escolher um entre diversos candidatos tendo em vista que muitos deles não parecem nem um pouco exemplares. Mas, desacreditar na política não fará com que as coisas se transformem milagrosamente, pelo contrário: se as pessoas conscientes não se importam, a eleição será decidida apenas pelos menos capacitados. Se consultarmos, dos nossos candidatos, o histórico de ações anteriores às eleições e percebermos que aqueles que praticaram irregularidades precisam receber medidas punitivas, aumentaremos nosso campo de visão para enxergarmos melhores caminhos na política.

Amanda Bonome

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