Show de Contradição: Políticas Públicas para “inglês ver”
mar 2015 19

Os três primeiros meses do ano de 2015 foram excepcionais para quem está de olho na Gestão Pública e apresentaram muitas polêmicas e mobilização dos mariliense nas redes sociais e nas ruas. Durante o último grande protesto que houve na Sessão da Câmara do dia 23/02/2015, a população entrou na casa dos edis para exigir maior participação política e não se fez calar até que algum dos seus representantes pudesse ser ouvido: ação proporcional diante da “vista grossa” da Prefeitura sobre 7.240 casos de dengue, um número que pode ser até cinco vezes maior, pois parte das pessoas infectadas não chega a realizar exame laboratorial para confirmar a suspeita da doença. Naquela mesma semana, houve protesto na quarta-feira (25/02/2015) por parte dos ouvintes na Audiência da Secretaria Municipal de Saúde.

No meio de fevereiro havia sido escrita a matéria sobre o assunto em Já combateu a dengue hoje?, afirmando que o surto de dengue iniciado em janeiro poderia vir a ser classificado como o pior da história pelo Centro de Controle de Zoonoses devido ao crescente número recorde de doentes. Enquanto o começo de uma crise se anunciava, as providências tomadas pelo Sistema de Saúde Pública Municipal eram provisórias, abrindo uma unidade de apoio exclusiva para atendimentos de dengue perto da Unidade Básica de Saúde no Bairro Cascata. Mas se formos mais longe, o aviso inicial se deu na publicação do relatório da Superintendência do Controle de Endemias (SUCEN) em 2014, que afirmava que o índice larvário do mosquito transmissor (Índice de Bureau) era de 5,7 para 100 casas, sendo que nessa escala, os números superiores à 4 apresentam riscos epidêmicos para a cidade.

Quanto às medidas preventivas na época da divulgação do relatório, a nebulização de inseticida (“fumacê”) teria sido realizada de 16/11/2014 à 05/12/2014, com aplicação de 2.564 litros de veneno, mas só seria retomada agora em março após a exigência dos cidadãos.  A última reviravolta do caso foi a negação do pedido de abertura da Comissão Processante pelo servidor público Antônio Vieira para investigar supostas negligências do prefeito Vinícius Camarinha no combate à epidemia de dengue, na Câmara foram dez votos contrários e três favoráveis (Cicero da Silva, Mário Coraíni e Wilson Damasceno). Como a instalação da CP precisava de pelo menos 2/3 votos a favor, a proposta foi rejeitada pelos vereadores e gerou revolta entre a população.

Na contramão, para continuar a tradição de convidar astros da música sertaneja para o Aniversário da Cidade (04/04), como foi profundamente abordado em As festas milionárias da Administração Pública Mariliense, esse ano anunciou-se a intenção de contratar a dupla Chitãozinho e Xororó para as comemorações e a vinda para Marília constava na Agenda de Shows dos artistas. Essa foi a gota d’água para os cidadãos que protestaram no dia 23/02 com o desabafo “Chega de farra, de show sertanejo, acabar com a dengue é o que eu desejo!” como principal grito. O show foi cancelado e por enquanto não há previsões de novas contratações.

Mas se nem a epidemia de dengue foi o suficiente para controlar a ambição megalomaníaca de promover grandes artistas na cidade, as Inversões Cronológicas irregulares das licitações referentes à Propaganda e Publicidade apresentaram um extraordinário aumento de 147,19% em relação ao período de Janeiro a Fevereiro de 2014, nos remetendo a Marília do “pouco pão e muito Circo”. Essa constatação foi possível ao realizar o levantamento das inversões das quatro empresas que mais recebem nessa área de acordo com as publicações nos Diários Oficiais:  LUZ PUBLICIDADE SP SUL LTDA, MARCOS ALVES PEREIRA PINTURA ME, ÚNICA PROPAGANDA LTDA EPP e VILSON DOS SANTOS DEMARCHI ME, que juntas receberam um total de R$ 853.304,57.

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Gráfico 1: Comparação dos valores das Inversões Cronológicas referentes a Publicidade e Propaganda nos meses de Janeiro e Fevereiro de 2014 e 2015.

Assim como no ano passado, a ÚNICA PROPAGANDA LTDA EPP, empresa responsável pela publicidade e propaganda institucional para prestação de serviços na mídia, lidera a lista com R$ 696.171,47, ou seja, 81,58% do valor destinado à Publicidade e Propaganda. Em 2º lugar está a MARCOS ALVES PEREIRA PINTURA – ME, que confecciona faixas institucionais para divulgação de eventos, temas e campanhas diversas no município, em 3º a VILSON DOS SANTOS DEMARCHI ME, que realiza a locação de aparelhagem de som para manutenção essencial de eventos no município, e em 4º a LUZ PUBLICIDADE SP SUL LTDA, responsável pela publicação obrigatória dos atos oficiais em jornal de grande circulação.

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Tabela 1: Empresas da área de Publicidade e Propaganda que mais receberam de Inversões no período de Janeiro e Fevereiro de 2015.

Os gastos exorbitantes do pagamento das inversões cronológicas de Publicidade e Propaganda, que são classificadas como ilegais perante a lei, em janeiro e fevereiro se justificam em meio ao caos onde a cada 31 moradores, 1 é ou foi vítima da dengue? As propagandas falam para os cidadãos fazerem a sua parte na prevenção, mas a prefeitura que vem escondendo a real gravidade da situação há meses não está fazendo a dela. Os shows de contradição da falta de verba para a área da Saúde Pública e o grande montante para o pagamento das divulgações e eventos, só fazem o conceito do povo pelo Executivo Municipal decair. A sensação de impotência do Legislativo, os únicos a quem cabe ao mariliense recorrer, gerou gritaria, confusão, vaias e revolta dentro da Câmara.

Um pequenino inseto pode fazer Marília despertar da sua apatia e inércia, os problemas chegaram a um ponto que palavras bonitas e comerciais não enganam. Não é só por um mosquito, são anos e anos de defasagem do sistema público de saúde, de sofrer calado. O protagonista do show mudou: agora é o povo querendo falar e ser ouvido.

Maysa Arashiro

1 Comentário

  1. Marcos Flaitt disse:

    Ol Maysa, gostaria que vcs investigassem e publicassem com quem a Unica e como e quando gastou as verbas da prefeitura, que são dinheiro nosso. Só assim teremos transperência nessa área e saber quais são os veículos beneficiados. A Unica é obrigada por lei a prestar essa informação. Bom trabalho. Obrigado

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